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Alternância de poder: 21 anos de PT no Planalto é demais

Nenhum partido deveria passar de 20 anos no comando do país. A saída é a de sempre: voto, fiscalização e instituições fortes

Opinião Por Redação A Culpa Não É Minha · · Política · 8 min de leitura

Lula foi reeleito no domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), com 99,99% dos votos apurados, segundo o InfoMoney e a Gazeta do Povo. Com o quarto mandato, o PT vai completar mais de 21 anos no Palácio do Planalto até janeiro de 2031, e a alternância de poder volta ao centro do debate.

É legal, foi decidido no voto e merece respeito. Mesmo assim, a nossa opinião é clara: é tempo demais para um partido só.

A conta: mais de 21 anos de PT no Palácio do Planalto

Somando tudo, são mais de 21 anos. Dos 28 anos entre janeiro de 2003 e janeiro de 2031, o PT terá governado em três de cada quatro. Só Lula soma 16.

Legal, decidido no voto e, ainda assim, tempo demais

Ninguém quebrou regra. Desde a Emenda Constitucional 16, de 1997, o presidente pode ser reeleito "para um único período subsequente". A Constituição limita mandatos seguidos, não a soma deles. Por isso Lula pôde voltar em 2023 e agora ganhar mais quatro anos.

Há uma contestação anunciada. Nesta segunda (26), Flávio Bolsonaro desistiu de pedir a anulação da eleição e anunciou uma ação (AIJE) pela cassação da chapa vencedora por suposto abuso de poder econômico, segundo a Gazeta do Povo.

Pela Lei Complementar 64/1990, casos da eleição presidencial correm no TSE. Só uma decisão do tribunal que dê razão à ação leva a cassação e a oito anos de inelegibilidade. O passo a passo está no nosso explicador sobre o pedido de Flávio Bolsonaro.

Este texto trata de outra coisa: do tempo. Legalidade é o piso, não o teto. Uma democracia pode cumprir todas as regras e, mesmo assim, ficar menos saudável quando o mesmo grupo ocupa o poder por duas décadas.

Por que a alternância de poder faz bem a qualquer democracia

Quem diz isso não somos só nós. Em junho de 2009, ao descartar um terceiro mandato seguido, Lula afirmou: "O Brasil precisa é consolidar a democracia, e a alternância de poder é sempre muito importante", segundo O Globo, em clipping do Senado.

Em novembro de 2019, no congresso do PT, ele reiterou ser contra reeleições e disse que, quando um dirigente começa a se achar imprescindível ou insubstituível, nasce nele a ideia de um pequeno ditador, segundo a agência EFE.

Concordamos com aquele Lula. E os motivos são práticos:

  • Prestação de contas. Governo que sabe que pode perder governa olhando para o eleitor, não só para o aliado.
  • A máquina pública não é do partido. Quanto mais tempo o mesmo grupo fica, mais fácil confundir governo, Estado e legenda. Trocar de mãos de tempos em tempos areja a casa.
  • Ideias novas. Os mesmos quadros por duas décadas tendem a repetir as mesmas respostas.

O eleitor sente isso. Em dezembro de 2024, 52% disseram à Quaest que Lula não deveria tentar a reeleição, contra 45% a favor, segundo o Congresso em Foco. Quase dois anos depois, a maioria dos votos válidos foi para ele. A vontade de mudança existia, e a oposição não a transformou em votos suficientes. Isso é lição para a direita, não desculpa.

O que Estados Unidos, México, África do Sul e Chile ensinam

  • Estados Unidos. Depois que Franklin Roosevelt venceu quatro eleições, o Congresso aprovou em 1947 a 22ª Emenda, ratificada em 1951: ninguém pode ser eleito presidente mais de duas vezes, segundo o Arquivo Nacional americano. O limite vale para a vida toda, não só para mandatos seguidos.
  • México. O PRI ficou 71 anos seguidos na Presidência. Em julho de 2000, Vicente Fox, do PAN, venceu, e o presidente Ernesto Zedillo, do PRI, reconheceu a vitória dele na TV horas após o fechamento das urnas, segundo a Associated Press.
  • África do Sul. O CNA dominava a política desde 1994. Em 2024, caiu de 57% (em 2019) para cerca de 40% dos votos e perdeu a maioria pela primeira vez, com desemprego de 32%, falta de água e luz e denúncias de corrupção, segundo a NPR.
  • Chile. Em dezembro de 2025, José Antonio Kast, da direita, venceu com 58,18% e foi eleito para o mandato de 2026 a 2030. A derrotada, Jeannette Jara, ex-ministra do governo de esquerda de Gabriel Boric, reconheceu o resultado logo nos primeiros números, segundo a Associated Press.

No México, na África do Sul e no Chile, a troca veio pelo voto. No caso sul-africano, três décadas de poder deixaram um desgaste que o eleitor cobrou.

Oposição até 2030: os números e as ferramentas

A direita perdeu o Planalto, mas não sai de mãos vazias:

  • Câmara: o PL elegeu 121 deputados, a maior da Casa e a maior de um partido desde 1990 (só o PMDB, em 1986, fez mais), segundo o Congresso em Foco. Os partidos tradicionalmente de esquerda e centro-esquerda, somados, chegam a 124 cadeiras, cerca de 24% da Casa, segundo a Gazeta do Povo.
  • Senado: o PL deve começar 2027 com 29 dos 81 senadores, pela projeção da Agência Senado, que ainda pode mudar. A Gazeta do Povo conta 28.

Isso abre portas concretas:

  1. CPIs. Para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a Constituição (art. 58) exige a assinatura de um terço da Casa. No Senado, são 27. Pelas duas contas, só o PL já teria as assinaturas, se a bancada se mantiver. Na Câmara, são 171, e o PL vai precisar de aliados.
  2. Filtro do Supremo. Em abril, o Senado rejeitou Jorge Messias para o STF por 42 a 34, a primeira recusa em 132 anos, segundo a Agência Senado. Lula poderá indicar ao menos quatro ministros no novo mandato (a de Barroso e as de Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, que atingem a aposentadoria obrigatória até 2030), pela conta da Gazeta do Povo, e todos passam por sabatina.
  3. Urnas de 2028 e 2030. Prefeitos e vereadores eleitos em 2028 formam a base de qualquer projeto nacional. Em 2030, Lula não poderá concorrer.

Em editorial em vídeo, o presidente da Gazeta do Povo, Guilherme Döring Cunha Pereira, defendeu que a oposição não desanime e assuma sua responsabilidade diante da crise no STF. Até o PSDB, que não declarou apoio a nenhum candidato no segundo turno, avisou que "seguirá na oposição com responsabilidade, equilíbrio e firmeza", segundo a Gazeta do Povo.

O mapa completo está em Congresso eleito em 2026.

O que isso muda pra você

  • Seu voto de 2026 não acabou na urna. O deputado e o senador que você elegeu assumem em fevereiro de 2027. Cobre presença, coerência nas votações e assinatura em CPI quando houver fato a investigar.
  • 2028 começa agora. A eleição municipal forma quem vai disputar governos estaduais e a Presidência depois. Conheça os nomes da sua cidade.
  • 2030 será sem Lula na urna. A Constituição não permite um terceiro mandato seguido. Ganha quem chegar com projeto, não só com rejeição ao adversário.
  • Acompanhe o governo de perto. O que já está no papel para os próximos quatro anos está no nosso guia do quarto mandato de Lula.

A nossa leitura

Defender a alternância de poder não é torcer contra o resultado. Lula venceu no voto e governará até 2031. E o nosso argumento vale para qualquer partido: se a direita voltar ao Planalto e tentar ficar duas décadas, este texto continuará valendo, palavra por palavra.

Vinte anos já seriam muito. Vinte e um é o que o eleitor decidiu, e a resposta também passa por ele. O leitor de direita perdeu a eleição, mas não perdeu a razão nem a voz. O caminho até 2030 é fiscalizar, organizar, convencer quem votou do outro lado e defender as instituições que garantem que, um dia, a vez muda.

Perguntas frequentes

Quantos anos o PT ficou no poder?

Lula governou de 2003 a 2010, Dilma Rousseff de 2011 até perder o mandato em agosto de 2016, e Lula voltou em 2023. Com o quarto mandato, que vai até 5 de janeiro de 2031, o PT soma mais de 21 anos no Planalto.

Lula pode se candidatar de novo em 2030?

Não. A Constituição permite uma única reeleição seguida (art. 14, § 5º), e o mandato que começa em 2027 já é a reeleição do atual. Segundo a Agência Brasil, o próprio Lula disse que este será o último.

O que é alternância de poder?

É a troca periódica, pelo voto livre, do grupo que governa. Não exige que o governo perca, mas que possa perder: a oposição precisa ter chance real de vencer, e quem vence sabe que um dia vai entregar o cargo.

Quantas vezes Lula foi eleito presidente?

Quatro: em 2002, 2006, 2022 e 2026. Em 2026, venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno com 51,79% dos votos válidos.

Fontes

  1. InfoMoney: Eleições 2026, cobertura ao vivo do segundo turno (25/10/2026)
  2. Agência Brasil: Lula é reeleito presidente do Brasil em virada histórica (25/10/2026)
  3. Agência Senado: Dilma Rousseff perde o mandato e Temer é confirmado presidente (31/8/2016)
  4. Wikipédia: Lista de presidentes do Brasil (datas dos mandatos)
  5. Planalto: Emenda Constitucional nº 111/2021 (posse em 5 de janeiro)
  6. Planalto: Emenda Constitucional nº 16/1997 (reeleição)
  7. Planalto: Constituição Federal (arts. 14 e 58)
  8. Gazeta do Povo: Flávio pedirá cassação da chapa de Lula e evita falar em anulação da eleição (26/10/2026)
  9. Planalto: Lei Complementar nº 64/1990 (arts. 2º e 22, AIJE)
  10. Senado, clipping de O Globo: Lula volta a negar terceiro mandato (13/6/2009)
  11. El Día, com agência EFE: Lula reitera rechazo a reelección (23/11/2019)
  12. Congresso em Foco: Quaest, maioria é contra tentativa de reeleição de Lula (12/12/2024)
  13. National Archives (EUA): Emendas XI a XXVII da Constituição americana
  14. Wikipedia: Twenty-second Amendment to the United States Constitution
  15. Deseret News, com Associated Press: Voters end 71 years of PRI rule in Mexico (3/7/2000)
  16. MPR News, com NPR: South Africa's ANC loses majority for the first time (1/6/2024)
  17. Diário do Grande ABC, com Associated Press: José Antonio Kast é eleito presidente do Chile (15/12/2025)
  18. Congresso em Foco: PL elege 121 deputados e faz a maior bancada eleita em 40 anos (5/10/2026)
  19. Gazeta do Povo: Lula reeleito terá de negociar com Congresso dominado pela direita em 2027 (25/10/2026)
  20. Agência Senado: Fim da eleição define composição do Senado em 2027, com 13 partidos (25/10/2026)
  21. Agência Senado: Indicação de Jorge Messias ao STF é rejeitada pelo Senado (29/4/2026)
  22. Gazeta do Povo, editorial em vídeo de Guilherme Döring Cunha Pereira: O Brasil saiu derrotado, mas a reação é possível (26/10/2026)
  23. Gazeta do Povo: Aliados de Flávio Bolsonaro reconhecem vitória de Lula (26/10/2026)

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