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Vitória da esquerda é ruim até para quem votou em Lula

Juros, dívida, impostos e investimento: os números mostram por que mais quatro anos de PT mandam a conta para todo mundo

Opinião Por Redação A Culpa Não É Minha · · Política · 8 min de leitura

Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo a apuração do TSE acompanhada pelo InfoMoney. A diferença foi de 4,4 milhões de votos. Este é um texto de opinião, e a nossa tese é simples: a vitória da esquerda é ruim para todos, inclusive para quem votou no Lula.

Não é choro de quem perdeu. São números.

O mercado deu o primeiro recado em menos de 24 horas

Na segunda-feira (26), a Bolsa caiu 13,88% e fechou aos 176.608 pontos. O dólar subiu 8,21% e terminou a R$ 5,40, segundo o InfoMoney. Logo no início do pregão, a B3 acionou o circuit breaker, a pausa automática de 30 minutos nos negócios, pela primeira vez desde março de 2020.

Mais importante: os juros futuros com vencimento em janeiro de 2029 subiram mais de 2,6 pontos, para 15,25% ao ano. Juro futuro é a taxa que o mercado projeta para os próximos anos e serve de base para o crédito de longo prazo. À tarde, os preços já embutiam uma alta da Selic em novembro.

Um dia de pânico não decide quatro anos, e parte da queda pode ser devolvida. Mas o recado é claro: quem empresta dinheiro ao Brasil desconfia da conta fiscal. Veja os detalhes em como o mercado reagiu à vitória de Lula.

A conta dos juros: R$ 1,18 trilhão em 12 meses

Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões, segundo dados do Banco Central publicados pelo Poder360. É o maior patamar desde março de 2021. Em dezembro de 2022, antes da posse de Lula, ela estava em 71,7%: são 11,2 pontos do PIB a mais no atual governo, pela série histórica do BC.

O pior é o custo. Nos 12 meses até agosto, os juros nominais da dívida do setor público somaram R$ 1,18 trilhão, ou 8,86% do PIB, segundo as estatísticas fiscais do Banco Central. Com isso, o déficit nominal, ou seja, o rombo total contando os juros, chegou a 9,48% do PIB.

A Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, calcula que seria preciso um superávit primário de 2,1% do PIB para estabilizar a dívida, segundo o relatório de agosto. Superávit primário é quando o governo arrecada mais do que gasta, sem contar os juros. Para 2026, a própria IFI e o governo projetam o contrário: déficit de 0,4% do PIB. A meta oficial só é cumprida graças a descontos previstos em lei e à margem de tolerância.

Em junho, a IFI projetou que a dívida pode chegar a 115% do PIB em 2036. Não é profecia de quebra. O diretor da instituição, Alexandre Andrade, disse que o quadro é preocupante, mas "é também administrável, porque ainda há tempo para se corrigir as trajetórias". A pergunta é quem vai corrigir. Entenda o mecanismo em a bomba fiscal da dívida pública.

Gasto que cresce mais rápido que a receita

O problema não é falta de arrecadação. De janeiro a julho de 2026, a receita líquida do governo subiu 6% acima da inflação, mas a despesa subiu 6,3%, segundo a IFI. O déficit estrutural, que tira da conta os efeitos passageiros, dobrou em um ano: foi de 0,7% para 1,4% do PIB nos 12 meses até junho.

Em maio, um editorial da Gazeta do Povo somou cerca de R$ 140 bilhões em medidas do ano eleitoral, com base em levantamento do BTG Pactual publicado pelo Estadão. Segundo o jornal, a mais cara é a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, com renúncia de R$ 31 bilhões, compensada em parte por aumento de outros impostos. O editorial cita ainda, como estímulos ao consumo, subsídios para gás e energia, o Desenrola 2.0, o consignado facilitado e o crédito para caminhões.

Muitas dessas medidas são parafiscais, ou seja, não passam direto pelo Orçamento. Ninguém é contra aliviar o bolso de quem ganha pouco. O problema é pagar o alívio com dívida.

Por que a vitória da esquerda pesa no seu crediário

Aqui está o ponto que vale para os dois lados. Governo que gasta demais obriga o Banco Central a segurar os juros lá em cima. A Selic ficou em 15% de junho de 2025 a março de 2026, o maior nível em quase 20 anos, segundo a Agência Brasil. Mesmo depois de cinco cortes seguidos, está em 13,75% ao ano. E a inflação voltou a subir: o IPCA acumulou 4,58% nos 12 meses até setembro, contra 4,22% até agosto, segundo o IBGE.

Juro alto não pergunta em quem você votou. Em julho de 2026, as parcelas de dívidas comprometiam 28,7% da renda das famílias, o maior nível da série do Banco Central, iniciada em 2005, segundo dados do BC. Quase R$ 3 de cada R$ 10 que entram na conta já saem para pagar parcelas.

Em agosto, na Money Week, o comentarista Caio Coppolla afirmou que "o custo de vida pode custar a eleição do Lula". Não custou, mas o aperto continua.

Impostos em recorde, investimento fraco

A carga tributária bruta chegou a 32,4% do PIB em 2025, o maior nível da série do Tesouro Nacional, iniciada em 2010, segundo a CNN Brasil. Em 2023, primeiro ano do governo, ela era de 30,3%. A alta veio puxada por Imposto de Renda retido na fonte, IOF e contribuições previdenciárias.

Imposto alto e juro alto formam a dupla que espanta o investimento. No segundo trimestre de 2026, a taxa de investimento, a fatia do PIB que vai para máquinas, obras e equipamentos, foi de 16,1%, abaixo dos 16,6% de um ano antes, segundo o IBGE, em dados citados pelo SBT News. No acumulado de quatro trimestres, ficou estável em 16,7%, longe dos cerca de 20% do fim de 2013, lembra o BNDES.

Sem investimento, a economia cresce no embalo do consumo e do gasto público, e a conta tende a voltar como inflação e juro.

O emprego vai bem, mas o motor perde força

Justiça seja feita: o desemprego ficou em 5,3% no trimestre até agosto, segundo o IBGE, o menor para esse período desde 2012, quando a série começou. Foi, com razão, um dos trunfos da campanha de Lula.

O ritmo de contratação com carteira, porém, está caindo. De janeiro a agosto de 2026, o país criou 1.134.033 vagas formais, 25,2% menos que no mesmo período de 2025, segundo o Caged. Foi o menor saldo para esses meses desde 2020. Com juro alto e investimento fraco, fica mais difícil manter o emprego em alta.

Um país dividido ao meio precisa de alternância

Flávio Bolsonaro teve 59,8 milhões de votos. A vitória veio por 3,6 pontos. Não é cheque em branco: é um país rachado ao meio pedindo equilíbrio.

Quando o mesmo partido fica tempo demais no poder, a política vira briga de torcida. A alternância é o remédio democrático, e é por ela que a direita deve trabalhar, dentro das regras. Leia mais sobre alternância de poder.

O que isso muda pra você

  • Dívida cara: se você deve no cartão ou no cheque especial, priorize quitar ou trocar por uma dívida mais barata. Com os juros futuros em alta, crédito novo tende a ficar mais caro.
  • Dólar: viagem, eletrônicos e produtos importados tendem a encarecer se o dólar ficar nesse patamar.
  • Copom: acompanhe a reunião de novembro do Banco Central. Ela vai mostrar se o ciclo de cortes da Selic acabou.
  • Fiscalização: cobre do seu deputado e do seu senador votos por controle de gastos.

A nossa leitura

Quem votou no Lula não votou contra o Brasil. Votou pensando no emprego, no Bolsa Família, na isenção do IR. São motivos legítimos. O problema é que a fatura desse modelo, feito de gasto acima da receita, dívida crescente e juro alto, chega para todos. E chega primeiro para quem tem menos.

A direita perdeu a eleição, mas não perdeu a razão nem a voz. O caminho agora é fiscalizar cada real, cobrar o Congresso, defender as instituições e se preparar para 2028 e 2030. Democracia é isso: quem perde vigia, e quem vigia volta.

Perguntas frequentes

Por que a vitória da esquerda é ruim para a economia?

Na nossa avaliação, porque o governo gasta mais do que arrecada, a dívida chegou a 82,9% do PIB em agosto de 2026 e isso mantém os juros altos. Juro alto encarece o crédito, trava o investimento e, com o tempo, freia o emprego.

O que acontece com os juros depois da reeleição de Lula?

A Selic está em 13,75% ao ano desde setembro de 2026. Na segunda-feira seguinte à eleição, os juros futuros dispararam e o mercado passou a apostar em alta da Selic na reunião de novembro, segundo o InfoMoney.

Qual é o tamanho da dívida pública do Brasil hoje?

Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral era de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB, segundo o Banco Central. É o maior nível desde março de 2021.

Quem votou no Lula também perde com juros altos?

Sim. Juro alto não pergunta em quem você votou: encarece o cartão, o consignado e o financiamento. Em julho de 2026, as parcelas de dívidas comprometiam 28,7% da renda das famílias, recorde da série do Banco Central, iniciada em 2005.

Fontes

  1. InfoMoney: resultado do 2º turno de 2026 (25/10/2026)
  2. O Povo: diferença de votos entre Lula e Flávio no 2º turno (25/10/2026)
  3. InfoMoney: Ibovespa, dólar e juros futuros em 26/10/2026
  4. Poder360: dívida bruta atinge 82,9% do PIB em agosto, diz Banco Central (30/09/2026)
  5. Banco Central: série 13762, dívida bruta do governo geral (% do PIB)
  6. Banco Central: estatísticas fiscais (juros nominais e resultado nominal, agosto de 2026)
  7. CNN Brasil: IFI alerta para despesas crescendo acima das receitas (RAF de agosto, 20/08/2026)
  8. CNN Brasil: dívida vai subir para 115% do PIB em 2036, diz IFI (26/06/2026)
  9. Gazeta do Povo: editorial 'Uma reeleição de R$ 140 bilhões' (19/05/2026)
  10. Agência Brasil: BC reduz juros básicos para 13,75% ao ano (16/09/2026)
  11. IBGE/Sidra: IPCA, variação acumulada em 12 meses (tabela 1737, setembro de 2026)
  12. Banco Central: série 29034, comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida, com ajuste sazonal (julho de 2026)
  13. Eu Quero Investir: Caio Coppolla na Money Week 2026 (27/08/2026)
  14. CNN Brasil: carga tributária bate recorde e chega a 32,4% do PIB (08/08/2026)
  15. SBT News: PIB cresce 0,5% no 2º trimestre e perde ritmo (01/09/2026)
  16. BNDES: comentários sobre o PIB do 2º trimestre de 2026 (03/09/2026)
  17. IBGE/Sidra: taxa de desocupação, PNAD Contínua (tabela 6381, trimestre até agosto de 2026)
  18. DGABC/Estadão Conteúdo: desemprego de 5,3% no trimestre até agosto, menor desde 2012 (29/09/2026)
  19. DGABC/Estadão Conteúdo: Caged de agosto de 2026 (29/09/2026)

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